Existem 3 fases da ignorância: Não saber que não sabe. Saber que não sabe. Não saber que sabe. Qual a sua?

sábado, 3 de março de 2012

Alfarrábio

Aqui, recolhida com os volumes encorpados e embrulhados desses exemplares, observada pelos calhamaços e obras dos tantos tratados sintetizados, fardados em promulgação; vivo em muitos momentos tônica e empoeirada, agredida e bem conservada, com leves acidificações, porém sem rasura ou sinal de desgaste, porque não estou impedida de repetir que, mesmo podendo ser melhor (e será), a vida é bonita, é gostosa e é bonita.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Trabalhar sozinho

o poema é uma conversa que você quer ter
e ninguém propôs

uma sensação
que ninguém quer saber

uma reflexão
que ninguém quer sentir

que até o exato momento de ser poema
todo mundo nem aí

e então
você tem de trabalhar sozinho

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Barulhinho de mulher

É difícil convencer de que o constante bater daquele caminhar ocasionava deveras um silêncio, pois anulava do mundo o resto e dominava a educação do ouvido a ponto de poder considerá-lo como atemporal e até mesmo natural. Aos poucos dava para se ouvir também a tampa do batom sendo tirada e quatro segundos depois recolocada: provavelmente o tempo para cumprir sua já desatenciosa vaidade dos lábios. Os passos, e eu acho que eram isso, ficavam mais aproximados de meu pequeno e recheado de caixas cômodo. Parceiro dos andares, o barulho da sacola sendo jogada no lixo do prédio antecede o desligar do alarme do carro e nele os saltos entram. O que vem agora é um motor. A porta, que grunhe agudamente toda vez, sob com o comando da apressada e aparentemente (com uma aparência dos áudios) dinâmica mulher, engole-a ao mesmo tempo que executa minha inspiração.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Amém

Que eu saiba sobre todas as escolas literárias

Que eu entenda de todas as religiões

Que eu conheça todas as fontes históricas

Que eu domine todas as teorias sociais

Que eu responda por todas as tendências da música



Que eu me baste com o que a vida me der

Que eu busque o subsídio

Que eu não morra de fome

Que eu seja simples

Que eu seja humilde



Que eu consiga um alto cargo profissional

Que eu tenha grandes e relevantes posses

Que eu saiba os momentos de usar meu orgulho

Que eu não sofra injustiças daqueles que me invejam



Que eu não seja ansiosa

Que eu

domingo, 11 de dezembro de 2011

Bem que podia

A medida do tempo bem que podia
acompanhar o coração
Bem que podia
E repudia os desejos amantes
Passar enterrar funilar

Bem que podia
O tempo mal passar
Ou todo ele morrer
pra só

o amor
amar

Bem que podia mesmo
Espera cada um
Tanta coisa
O bem, que podia mesmo,
só esperou

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Canelas inchadas

Mentalmente, refazia o conteúdo material do quarto, e confirmar com os normais olhos, os da frente da face, que o caderno estava, sim, à esquerda, em cima de xerox e livros emprestados, foi-lhe aval, crédito e passagem, como que dizendo que agora só faltava encontrar uma, que nem carecia de ser a, caneta. Naquele instante, nas folhas que num passado não muito distante ocupavam sua matéria mais excitante da faculdade que trancara, cumpriu com sua fisiologia alfabetizada.

O mais cômico, rotineiro também, mas engraçado, notável, era que sempre essa pessoa fazia introduções das introduções do que faria ou falaria, na prática ou na teoria, como que meio se justificandinho para quem ela (pessoa) sabe que não existiria, o/um leitor.

E, portanto, por tantos adendos e justificações, o teor da sua sensibilidade (residente lá no início a começar a achar que talvez, quiçá, quem sabe, o caderno estivesse ali para ela (pessoa) talvez, quiçá, quem sabe, correr, escorrer e discorrer sobre as impressões e inspirações criativas e imagéticas de sua canela que lhe parecia mais inchada pois sabe-se lá pois, sem dizer a respeito do quão prazeroso (e ela, a pessoa, volta e meia refletia sobre isso) era no papel e não no teclado emperrado do computador escrever, porque o primeiro é diálogo, vivo, de dois; o segundo, bem, o segundo não, não tanto), morria num tom esquizofrênico, não insensível porém, de sede em mostrar que cuidava das possíveis observações a serem feitas por alguém, o ninguém, que lesse.

Por fim, o que era para ser começo de sua arte, que sem espaço e respeito adoece e dá câncer ao ser, o que ficam são explicações. E ela (pessoa), está insatisfeita sabendo que poderia ter mais bem tratado suas subjetividades autorais e belas, e piamente promete que começará, na próxima vez, de uma vez!

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Eliminatória

a forma que o bloco de papel se esticou
fazia as folhas deitarem-se umas depois das outras
exibindo-se para mim
desfilando
para o concurso de qual era a inspiração a ser escolhida
para eu fazer uma poesia

nenhuma ganhou

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Poesia por encomenda

No primeiro verso você propõe
Nem sempre alguma coisa diz
No terceiro, uma rima você expõe
Basicamente assim como fiz

Se tiver vontade
Faça uma reflexão
Mas sem muito alarde
Pra que não toque o coração

Por que daí não!
Só vai dar em problema
Não sei qual babaca que disse
Pra ter sentimento no poema

Escrever isso aqui
Dispensa sensibilidade
É só olhar o mundo
O outro
Perceber-se
No fundo
Da superfície que te engole
Na rotina
A saliva que velha fica
Engolida no seco
Sem ser verdade
Sem ser saliva