Existem 3 fases da ignorância: Não saber que não sabe. Saber que não sabe. Não saber que sabe. Qual a sua?

domingo, 20 de janeiro de 2019

Sexo explícito, nexo implícito

" - Não quer que eu vire o caixote para você apoiar melhor?" foi a pergunta que ele me fez no bar enquanto minha condromalacia reclamava e eu descansava os joelhos de um jeito improvisado. Eu me reclinei na cadeira. Ele fitou um caixote. Pegou e colocou para mim. Eu apoiei as pernas. Tudo isso em silêncio, como sempre são os movimentos de quem sabe o que está fazendo. Sob a trilha sonora da conversa mais importante da face da Terra, de todo o Universo, a pergunta só veio depois, quando mudei a postura por conta de tanto tesão.

Nas três vezes que fui ao banheiro (ele foi duas), controlei o frio na barriga e a palpitação de uma maneira heroica. No primeiro minuto ao encará-lo quiçá tenha sido mais difícil. O charme de chegar atrasadinha tem seu constrangedor custo. Mas ele tem uma forma humana para mim agora. Ele nem é tão grande assim, como eu o montei. Eu nem sou tão pequena assim, como sempre me monto.

Somos do mesmo tamanho.

Mas eu sou uma fêmea, e ele é um macho. E meu papel será servi-lo inquestionavelmente.
Temo que ele ame uma submissão não declarada, até combativa e contrariada. Eu, diferente, declaro minha vassalagem, aberta, escancarada, escrachada, arreganhada, ainda que nela habite saber que talvez precisarei dividi-lo. No fundo, é o que estive fazendo a vida toda.

A certeza dele e minha de que terminaremos bem um texto quando começamos a escrever é a mesma da infinitude criativa que somos, dos desejos infinitos que temos. Infinitos e sem corpo, porque o sexo não é feito no corpo, ele é feito nos símbolos, nas ideias, na mordida confiante no doce que acompanhava meu café, na respiração desapercebida entre as mensagens gravadas que junto gravavam o barulho da mão e corpo e ele sequer imaginava que eu ouvia, na expressão tão indiferente enquanto sola na guitarra por tão concentrado estar. O sexo é o retórico que encosta no erótico. Chuvas, pães e corpos: acabam. Potência, desejos e contradições: não acabam.

Te apresento o infinito. Te apresento a morte.
E o orgasmo, como seu francês sabe, c'est la petite mort.

Bem-vindo. Comigo.

sábado, 12 de janeiro de 2019

quarenta vezes o infinito

O piano. Às vezes, precisamos dele. Os tons mais graves, profundos como o âmago da alma que desviamos enxergar. No céu que eu inventei, existem sons mais alegres, menos duramente reflexivos assim.

Ouço-o agora, num momento específico e irreversível da vida em que não sei mais responsabilizar externalidades por minhas estruturas existenciais.

Escuto e o rememoro como trilha sonora de um filme, Her, onde o amor é possível. Amar não.

Dilacerado, esfacelado, em contato íntimo extremo com a dor e sofrimento, e disso criar formas artísticas e sociais dela, a esperança: isso é a sublimação.

É o que me trouxe até aqui.
Que me carrega, mesmo pesada, lenta, incrédula, suja, errada, desmerecedora.

Por respeito, não fale sublimar em vão.


já não é mais
de fazer par
se o meu suposto par
compartilhar
quase que me partindo
da opinião que parte do homem
faz a parte da mulher
não-parte
mas um porte
secreto

errado
contido

contigo
me puni ao arriscar
e depois de ser seu cobertor
coberta eu também
me descobri

dentro, no meio
na ponta do seio
o pecado veio
é feio

você já me esqueceu
e ao contrário
eu
entrego

dois, três, todos os meus dedos
língua, boca,
espelho

mensagens
massagens
comigo

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

faltou o beijo


Te imaginei tanto, te imaginei tudo, te revelei até mais que previa. Mas não reverenciei a principal entrada que me espera no nosso mundo de escolhas diárias pelo sim. Pelo possível.
Pelos pelos, boca e cabelo, com solos de guitarra a me conquistar, mas uma ausência na descrição do beijo se fez presente.
Presente agora e aqui (que é só o que existe) está o beijo que hoje (que é só o que existe) quero te dar, ainda que na tentativa mais injusta de narrá-lo na escrita.
Acontece que, mesmo com os lábios, língua, dança, boca, seria injusto fazê-lo: não é nestes lugares que ele começa, nem nestes lugares que ele termina.
Nossos outros prazeres sabem disso, pois habitam lugares que não existem, que não se localizam, que não se penetram, porque isso tudo é ter um fim, e nós alcançamos algo infinito, colecionando um fio de cabelo por dia, da mais infinita crina que já existiu, rumo a essa eternidade de amor.

sempre nascemos
no dia em que nascemos
se estivermos vivos

[ -- E você vive assim?
  -- É apenas como sei. ]

sábado, 5 de janeiro de 2019

Nexo explícito, sexo implícito

Sabia. Unhas lascadas de tanto cutucar seus cantos: era a inspiração para escrever se materializando nas úngulas. Assim, sem a mão feita e mais a espinha que saiu pelo excesso de açaí cheio de chocolate, virei uma verdadeira garotinha púbere. Isso somado ao espírito entusiasmado que cultivo perenemente me deixa com pouca credibilidade perto dos mais velhos.

Agora, note, "novo" é aquilo que tem que ver com novidade. Conservar sensações dessa ordem, do não-saber, do viver desinteressado e, por isso, revelador e empolgante, é ser novo.

Um quarentão animado com sabores inéditos e inesperados de uma conversa flertante, por exemplo, é novo. Idade é outra coisa. Idade, sim, tem que ver com responsabilidades, cumprimentos, chatices e necessidades adultas. Uma novinha assertiva e resiliente, que fez bons acordos existenciais em aplacar sofrimentos, por exemplo, é adulta.

O mais frustrante dos empreendimentos é tentar "explicar" isso. Pois o mundo está abarrotado de adultos que não sabem mais ser novos. E então toda retórica e eloquência que se esforce nisso vai esbarrar num diagnóstico de mera inventividade, graça, quando não loucura.

Se nos desocidentalizássemos, perceberíamos a inteligência dos errantes, dos aqui, Ocidente, chamados loucos, reconhecendo que é nela, loucura, que está o segredo da psique, não o contrário. Lá, Oriente, os loucos são admirados, reverenciados, eles são os sábios. Se nos orientássemos orientalizando-nos, reverteríamos a energia de possíveis oponentes, físicos ou políticos, de forma a acolhê-la e redirecioná-la durante golpes, físicos ou políticos. Como verdadeiros aikidokas sociais.

Olha-se, porém, com descrédito para tais seres. Resta-lhes, a despeito desta clínica do real, a poesia, já que a ficção é a única realidade possível. Ainda que para encostar nestes desejos dominantes o risco seja alto, lá estão, criando. Criatividades arriscadas. Tal qual Rebecca, fotógrafa de guerra em 'Mil vezes boa noite', filme em que a jornalista pode conduzir sua vida de esposa, mãe e estabilidades, mas as zonas de conflito e perigos iminentes a atraem, incontornavelmente.


Talvez esse texto pecador sem centro de narrativa esteja próximo do fim, uma vez que é dessa maneira que estão as unhas citadas no começo. Acho que quase roê-las todas foi sustentar alguma instância roedora, como de um esquilo. Ou, como dos ratinhos, às vezes corredores infinitos em esteiras de experimentos interessantíssimos.